quinta-feira, agosto 25, 2005

DESSALINIZAÇÃO DA ÁGUA DO MAR

. O JN na sua edição de 2ªfeira, dia 22 de Agosto, apresentava a seguinte notícia “ Dessalinização não é solução para Portugal”.

O actual Ministro do Ambiente e o Presidente da holding “Águas de Portugal” afirmaram que o processo “está absolutamente fora de questão, pois a dessalinização é sempre uma solução cara e que só deve ser usada em situações de carência”.

Quanto ao custo, concordo parcialmente. No entanto pergunto – por quanto fica o abastecimento de água a dezenas de milhares de portugueses, que estão a receber água através de cisternas dos bombeiros?

Portugal está a atravessar um período de seca prolongada e é natural que esta se prolongue. Mesmo que no próximo Inverno ocorram chuvas estas, devido à falta de coberto vegetal numa parte substancial do território nacional, não vão irrigar os níveis freáticos, mas sim provocar a poluição dos terrenos, dos rios e ribeiros, devido ao arrasto das cinzas dos incêndios.

Portugal só tem registos meteorológicos a sério a partir de 1941, embora haja registos parciais com alguma veracidade, no século anterior.

No entanto, Portugal ao longo da sua história teve secas que trouxeram fome e miséria ao País. Segundo relatos escritos da época ocorreram períodos de seca em 1122, 1522, 1613, 1630, 1650, 1683, 1727, 1752, 1874 e 1876.

Dadas as condições climatéricas, tudo leva a crer que os períodos de seca vão ocorrer mais vezes e com menor intervalo.

Os latifúndios do Alentejo existem, devido à falência de pequenos proprietários, tornados assalariados, por não terem tido capacidade para saldar compromissos financeiros, devido a anos agrícolas desastrosos.

No Norte as catástrofes da seca e de fome originaram, até ao século XX, um fenómeno diferente – a emigração para o Brasil, Venezuela, Argentina, África e EUA.

A nossa vizinha Espanha, que tem, praticamente, o mesmo clima que o nosso, já tem em funcionamento 900 dessalinizadoras. Simultaneamente, a Espanha criou e desenvolveu um nicho industrial tecnológico nesta área e vende, neste momento, centrais de dessalinização para todo o Mundo. Com esta politica e com esta estratégia, a Espanha criou riqueza e empregos (a exemplo do que fez com a indústria eólica que criou 11.000 empregos e vende equipamentos para todo o Mundo).

É claro que os Espanhóis devem ser malucos e nós os espertos.

Quando os Espanhóis começaram a estudar este processo de dessalinização, em 1970, cada m3 de água dessalinizada custava 2,10 euros. Neste momento, com tecnologia que desenvolveram (osmose inversa) e com uso de energias renováveis, nomeadamente a eólica, permitiram baixar os custos da energia gasta para dessalinizar a água do mar e, neste momento, o custo de cada m3 de água potável custa cerca de 0,46 euros.
Só na Comunidade Valenciana e na Região de Múrcia, a Espanha pretende instalar uma potência eólica de 830 MWH, que é o dobro do que necessitará para produzir 621 hectómetros cúbicos de água potável, anualmente.

Em 1970, a Espanha gastava 22 KWH para produzir 1 m3 de água potável e em 2004 já despendia apenas 3,8 KWH.

Há ainda alguns aspectos a equacionar como seja, por exemplo, o destino final a dar à salmoura obtida, que não pode ser vertida no mar em estado concentrado, para não desequilibrar os meios marinhos.

Um outro aspecto prende-se com o uso de energia renovável para o processo (eólica, energia das ondas), para não agravar a emissão de CO2 para a atmosfera.

Tudo isto é estudado em profundidade em Espanha e já pensam em abandonar o transvaze do Ebro para o sul de Espanha, evitando os custos elevadíssimos nas condutas.

A Espanha discute os problemas, estuda as soluções possíveis, escolhe as melhores soluções e avança determinada para concretizar a estratégia definida.

Por isso é que a Espanha venceu o atraso que tinha e está, neste momento, entre as 10 Nações mais desenvolvidas do Mundo.

Nós, infelizmente, inventamos uma máquina diabólica que dá cabo de todas as ideias válidas – O COMPLICÓMETRO.

Esta máquina não é exportável, pois ninguém a quer.

5 Comments:

Blogger Armando S. Sousa said...

Já tinha dito isto no comentário anterior sobre uma problemático sobre o nosso Oceano. Temos de acordar e reparar que o nosso futuro está no nosso imenso mar.
Um abraço.

6:28 da tarde  
Blogger mfc said...

Um post magnífico com uma informação enorme que desconhecia.
Muito obrigado.

8:13 da tarde  
Blogger rajodoas said...

Caro amigo, afirmações destas só vêm provar que efectivamente nós continuamos a ser governados por uma cambada de incompetentes, que além de falta de imaginação nem sequer têm capacidade para copiar coluções de recurso a que outros paises deitaram mão como foi o caso da Espanha. Esta foi é e continuará a ser uma solução e isso está bem patente nos paises que a ela recorreram. Mas insisto como esta gente não tem ideias e muito menos soluções se a seca se prolongar
estou para ver se depois passamos a andar a correr atrás de camiões sisterna dos bombeiros para ser abastecidos, como aliás já está a acontecer em vários municípios do País. Com um abraço do Raul

11:08 da tarde  
Blogger xipsocial said...

Em Espanha trabalha-se e produzem-se soluções, cá enchem-se os tachos. Investimentos, só em projectos que envolvam bastante betão, que rápidamente se transformam em fontes de encher o tacho dos amigos e compadres. Soluções para problemas e a preocupação com o futuro energético são falsas questões, levantadas por ambientalistas, fundamentalistas. No betão é que está o ganho (de poucos).
Excelente texto.

10:52 da manhã  
Blogger Joana said...

Caro Duarte, dois anos depois cá estamos nós às voltas com o mesmo tema. Achamos relevante trazer o tema para um trabalho da Faculdade de Economia do Porto, de forma a chamar a atenção para um problema que se tem vindo a negar e mostrar como a solução, através da dessalinização, seria 'simples' para o nosso país. Gostaria de dispõe de mais informações actuais sobre o tema, estando particularmente interessada nos números relacionados com tal projecto.
Cumprimentos

11:54 da manhã  

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